domingo, 24 de setembro de 2006

Domingão com chuva?.... Corra!


Depois de muitos dias de intenso calor... Com temperatura beirando os 30° e umidade do ar na casa dos 29%... Eis que a chuva cai na capital federal. Ô coisa boa... Acordar num domingão, com barulho de chuva na janela e aquele friozinho... A desculpa perfeita para ficar agarrado embaixo das cobertas.

Quem seria doido de acordar às 6h pra correr em baixo de chuva? Bem... Apenas cerca de umas duas mil pessoas, divididas em 250 equipes, que estavam participando da Super 40 - o maior circuito de revezamento do Brasil.

Desculpem-nos os “normais”... Mas é que esse negócio de esporte, quando entra na veia... xiiiiii não tem jeito. É caso perdido.

Confesso que quando estava saindo de casa bateu aquela dúvida... Caracas! Será que toda minha equipe vai estar lá? Será que a chuva vai espantar o povo?

A entrega dos chips era até 7h30 da manhã. Às 7h, a caminho da Esplanada dos Ministérios, onde seria a competição, a única coisa que via era a chuva caindo no pára-brisa e as ruas desertas. “Caramba! Acho que a prova vai atrasar. Ainda não deve ter ninguém por lá... só eu mesmo, maluca, para sair de casa embaixo de chuva para correr. Tenho que me tratar! Urgentemente”.

Mas, para meu alívio, ao chegar à Esplanada já havia um locutor “histérico” convocando as equipes para checagem e retirada dos chips. Um bando de “doidinhos” pra baixo e pra cima, empacotados, andando sob a chuva para organizar os últimos detalhes. Os pobres militares que faziam a guarda do Palácio do Planalto olhavam atônitos, quase sem acreditar que mesmo com aquela chuva o povo tava lá.

Foi minha primeira participação numa prova de revezamento. Na verdade, a primeira de todo mundo da equipe.

- E ai Fabí, qual será a nossa estratégia?
- Estratégia? Nenhuma.
- Não? Não temos uma estratégia?
- Não. Você pensou em alguma?

A competição em si não seria desgastante. Formamos uma equipe de 10 integrantes, ou seja, 4 km para cada um. Minha expectativa era que terminássemos aqueles 40 km em 4 horas. Afinal, tratava-se de um grupo heterogêneo. Entre nós haviam aqueles apaixonados por corrida de rua (eu e Alex), ex-triatletas (Pedro e Adriano), “figuras” que gostam de esporte, mas estavam um tanto entregues ao sofá (Geraldo e Rafael), freqüentadores de academia - que estou aliciando para corridas de rua (Murilo e Vinicius) e por fim sedentários convictos, mas com muita disposição (Sávio e Carlos).

Nosso objetivo não era vencer ninguém. Cada um tinha seu desafio pessoal. Mas interessante mesmo é ver como provas desse tipo são capazes de congregar esportistas de diversas modalidades. Ali havia Iron Man, maratonistas, nadadores, atletas de fim de semana... Enfim, gente que, como nós, estava ali pelo simples prazer de se reunir com amigos e praticar um esporte.

Loucura? Não! Mas acontece que só entende quem sente esse “veneno” correr nas veias. E se quem faz não consegue explicar... quem não faz... não consegue entender. Bem, pra nosso espanto e alegria geral, fechamos a prova em 3h27. Show de bola pra um domingão que tinha tudo pra ser só mais um.

sábado, 9 de setembro de 2006

Meu Ano Novo pessoal

Aniversários são como o Ano Novo pessoal. Já repararam como é inevitável repensar a vida e os acontecimentos nesta data? E agora que estou chegando aos 2.9... Andei pensando no que deu pra aprender em quase três décadas?
No geral, descobri que ainda tenho muito, muito para aprender.

Dos aprendizados, o mais forte foi a descoberta de que não devemos ser escravos do relógio, mas que pontualidade facilita muito as coisas.
Aprendi também que quebrar a rotina faz bem para a saúde;
Que chegar atrasado no trabalho não mata ninguém;
E que fazer hora extra e trabalhar nos fins de semana não é sinônimo de eficiência.

Percebi que devemos usar somente roupas que nos fazem sentir bem;
Que estilo está acima de qualquer moda;
Que maquiagem é algo totalmente dispensável;
Mas que, depois dos 25, o creme anti-rugas é um dos nossos maiores aliados.

Aprendi que em bolsa de mulher nunca podem faltar: caneta e lixa de unha;
Que nunca devemos cortar o cabelo quando estamos deprimidos;
E que fazer compras é um bom remédio para espantar a tristeza (correr também).

Aprendi que um pedido de desculpa alivia a alma;
E que reconhecer os próprios erros nos torna mais humilde.
Que amizades verdadeiras resistem à distância;
E que sempre devemos dizer “obrigada”, ”por favor”, “bom dia” e “com licença”.

Depois de algumas quedas...
Descobri que falar demais nem sempre é bom;
Que falar de menos é pior ainda;
Que a medida exata do falar exige sabedoria;
E que calar é essencial para poder escutar.

Aprendi que dizer a verdade é SEMPRE melhor que mentir (e dá menos trabalho);
Que devemos fazer uma coisa de cada vez;
E prestar atenção em quem está falando é exercitar o respeito.

Aprendi que pequenas pausas no trabalho ajudam a oxigenar a mente;
Que as refeições devem ser saboreadas, até as mais simples;
E que frutas são sempre uma opção melhor que biscoitos.
Descobri (de fato) que uma alimentação leve dá mais disposição;
E que chocolate é um santo remédio para TPM, mas em excesso te deixa arrasada.

Aprendi que colegas de trabalho podem ser agressivos quando se sentem inseguros;
Que chefes... Serão sempre chefes. Alguns melhores, outros piores.
Que levar o trabalho “nas coxas” é uma acomodação inútil;
Que sempre devemos nos dedicar ao que fazemos (e tentar fazer bem feito);
E que renovar os desafios nos traz mais motivação.
Ah! Importante: descobri que misturar trabalho e amor não dá certo.

Aprendi que nunca é tarde para dizer a sua mãe que ela é a melhor do mundo;
Que é obrigação dos irmãos mais velhos levantarem a estima dos mais novos;
Que irmãos mais velhos sempre se acharam mais espertos e experientes;
E que não devemos ser os “pais” de nossos pais. Isso não é saudável!

Vejamos...
Descobri que se o primeiro beijo não te fizer tremer... Nem adianta ir além;
Que não se deve ir para “o finalmente” no primeiro encontro;
Que preservativo é in-dis-pen-sá-vel, por que filhos provocam uma baita mudança;
E que nossa cama é um lugar sagrado, digno de pessoas especiais.

Descobri que toda mulher é romântica sim (cada uma a sua maneira);
Que devemos, acima de tudo, sermos apaixonados pela vida e por nós;
Que relacionamentos exigem zelo permanente;
E que se os sentimentos devem ser “retro alimentados” para que não morram.

Ai ai...
Aprendi que não devemos ser tão inflexíveis, exigentes, sérios e metódicos.
Sorrir mais!

A pouco tempo entendi que não devemos esconder o que sentimos;
Nunca deixar de dizer “eu te amo”;
Mas que isso também não pode virar lugar comum.
Que devemos nos permitir amar e oferecer esse amor a alguém, mas não a qualquer um.

Depois de alguns deslizes...
Descobri que devemos dar sempre o melhor de nós;
E nunca nos arrependermos disso;
Mas, que precisamos saber a hora de começar e parar;
E algo importantíssimo: relacionamentos não se terminam por telefone.

Aprendi que precisamos estabelecer limites para que os outros entrem em nossas vidas;
Que nunca devemos esperar nada de ninguém;
Que não existe par perfeito;
Que sempre existirão diferenças (e nem sempre elas serão defeitos);
E que compartilhar não exclui a necessidade de privacidade.

Aprendi que nunca teremos certeza de tudo;
Que nunca estaremos imunes a uma decepção;
Que confiança é base de um relacionamento;
Que a dor de um amor pode levar dias para curar e dói pra C...;
E que intuição é F... Não falha!

Descobri que uma noite mal dormida te deixa arrasada o dia todo;
Mas que noites (bem) agitadas fazem muito bem para o humor.
Descobri que sexo é bom, mas não pode ser descartável.
Ah! Aprendi que beijar um homem pensando em outro é uma agressão para alma.

Calma, tem mais...
Descobri como é prazeroso cozinhar para as pessoas que gostamos;
Que plantas humanizam o ambiente (mas ainda não falo com elas);
Que livros e vídeos são excelentes pedidas para o fim de semana;
Que café e sorvete são ótimos acompanhamentos para um bate-papo;
E que receber bem as pessoas faz uma diferença danada.

Descobri que uma reunião na casa de amigos é melhor que qualquer “balada”;
Que ver o sol nascer é melhor que ficar na cama até tarde;
Mas que dormir depois do almoço é uma delícia.

Descobri que quase nada é tão bom quanto: dormir nos braços da pessoa que você ama, pedalar na estrada, correr na beira da praia, sentir o cheiro e sons da natureza no meio da mata, escutar o silêncio de um fim de tarde e assistir ao pôr-do-sol nas estradas de Alagoas e nas serras de Minas Gerais.

Aprendi que a mudança é algo necessário;
Que devemos arriscar;
Que precisamos aprender a perdoar a nós mesmos;
E que mesmo triste, não devemos fechar as portas.

Também descobri que não adianta tentar ser perfeita.
Percebi que a vida é o bem mais precioso que temos;
Que temos a obrigação de aproveita-la com sabedoria e alegria;
E descobri que nem tudo que sabemos nós realmente aprendemos, mas sou feliz com o TUDO MUITO que tenho.

domingo, 3 de setembro de 2006

Qual a medida?

Entre as dificuldades de SER humano está saber dosar.
Encontrar a medida certa dos ingredientes
É uma arte exige observação e experiência.

O excesso ou a falta podem fazer desandar.
Então, atenção para o dosar!

A medida certa do fermento,
As colheres de açúcar e a pitada de sal.
O tempo de cozimento, as horas de congelador.

Cuidado com a dose da raiva, ela pode intoxicar.
Tolerância e passividade com moderação, para não acomodar.
Iniciativa e colaboração, na medida e tempo certos, para não deixar morrer.

Saber medir com precisão a quantidade de palavras,
E o tempo de silêncio também é importante.
Em demasia, pode azedar a receita ou causar indigestão.

Saber quando acelerar e o ponto de parar.
Ah! É preciso ter atenção!
Amor? Sempre! Mas, cuidado!
Esse é um ingrediente que tem o tempo certo para ser misturado.

Não deu certo? Não desanime.
Poucos aprendem de primeira.
Na falta da experiência ou de habilidade,
O importante é continuar se dedicando à arte.

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

A vida 'senhorinha'

O que se passa na mente da senhorinha de casaco verde?
Sentada, de pés juntinhos e bengala entre as pernas...

O que se passa na mente daquela mulher de cabelos nevoados e olhar meigo?
Serena, de semblante paciente a espera da chamada...
Para aonde ela irá? De onde vem? Em que lugares já esteve?
Terá vivido bons anos? Terá sido boa mãe, filha?

O que se passa na cabeça daquela senhorinha de mãos pequeninas
e delicadamente postas sobre os joelhos?
Será que espera por um reencontro?
Será que pensa no jantar, no seu jardim, nos seus netos?
Pensaria em dias alegres ou desperdiçados?
Saudade de alguém, saudade dos anos, saudades de si?

O que vai à mente daquela senhorinha que a tudo observa de olhos atentos?
Como quem assiste a um filme pela segunda, terceira ou quarta vez...
São lembranças do passado ou será o futuro que tenta desenhar?
O que se passa na mente que habita aquele corpinho franzino?

Como serei eu senhorinha? Serei bem vivida?
Só não vale chegar ao fim da vida (ou mesmo de um dia) sem ter percebido o principal.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Iron 70.3 (2ª parte)

Olhar de Fora

Impossível saber o que se passava na cabeça deles durante aquelas cinco horas e tanto de prova. Mas posso falar do que vi e senti.

As quatro e pouco da manhã, quando me preparava para sair de casa, pensei: “Vou acompanhar a largada, tirar algumas fotos dos meninos e ficar por ali, na área de transição, para vê-los entre as passagens. Ah! Lógico, também vou levar um livro pra passar o tempo. Procurar uma árvore... uma sombra. É só ter um pouco de paciência e as horas passarão rapidinho”.

A previsão era de que os meninos terminassem a prova em, no mínino, 5h30min. Também pensei em aproveitar o tempo para comprar algo na exposição que estava tendo por ali... uma camisa.... coisas do tipo. Ou, quem sabe, tentar perder o medo de bung jump, já que eles haviam montado uma estrutura para salto dentro do evento.

Mas acontece que meus planos não saíram da forma como imaginei...

Como minha idéia era registrar todas as etapas da prova, depois da largada corri para o local onde os atletas sairiam da água pra tirar fotos dos meninos. Os favoritos logo chegaram e estava preparada para esperar pelos nossos mosqueteiros pacientemente. Mas, quando menos espero, com pouco mais de 20 min (precisos 28’18”), eis que surge o Fabrizio. Sem nenhum traço de cansaço. Entre surpresa e feliz, resolvi esperar mais um pouco para tentar fazer fotos dos outros amigos.

Mas também queria registrar a saída deles de bicicleta. Então pensei: “Espero eles saírem da água e corro para tentar pegar a transição para bike. Depois... vou para sombra”. O sol já estava começando a tostar meus ombros.

Acontece que a diferença entre o tempo dos meninos na natação não permitiu esse registro tão fiel. Tavares saiu da água com 31’28” e Hélcio com 35’19”. Ou seja, consegui fazer a foto do pedal de apenas dois mosqueteiros.

- E agora? Tenho que fazer o foto do Fabrizio. Ele não pode ficar sem o registro do pedal. E depois, serão 90 km de ciclismo (divididos em três voltas de 30 km)... Não dá pra ficar aqui, sentada, sem saber o que se passa no asfalto. Vou assistir ao menos a primeira volta.

Então procurei um lugar por onde os atletas passariam e fiquei esperando. Naquela altura do campeonato a “quentura” já estava matando. Olhei para sol, para as sombras e pensei: “Depois que eles passarem por aqui vou lá para dentro, sentar na arquibancada coberta, e esperar lendo meu livro”.

Na primeira volta consegui ver apenas o Fabrízio e Hélcio... nada do Tavares. A preocupação começou a bater. “Caramba! Será que aconteceu alguma coisa?”. Lógico que depois disso decidi ficar e assistir a segunda volta. Não poderia ficar na expectativa, sem saber o que teria acontecido a ele. “Será que não vi o Tavares passar? Será que ele quebrou? Poxa vida, cadê o ‘Tata’?” Sabia que ele estava com uma lesão muscular e tinha medo que houvesse acontecido algo. O ‘negão’ tem raça, mas não é de ferro (embora seja um Iron Man).

O tempo entre uma volta e outra era suficiente para ir ao banheiro e procurar algo para comer. Detalhe: lembrei do livro e esqueci a comida – o vacilo do dia. Mas descobri que por perto não havia nenhum lugar para comprar comida e a única barraca de alimentação do evento ainda estava fechada.

Constatado o fato de que teria que me abstrair do café da manhã, voltei correndo para a rua. Durante a espera, uma conversa aqui... outra ali... e pude confirmar de que realmente a organização do Iron escolheu o pior trecho de asfalto de Brasília para compor o ciclismo. A cidade teve o asfalto todo reformado, mas ali, justamente ali, havia pedaços recapeados que faziam as bicicletas trepidarem.

Na segunda volta o Fabrízio ainda estava na frente dos outros mosqueteiros. Quase não acreditei. Ele, novato no triathlon de longa distância, estava conseguindo se manter muito bem na prova. Aliás, todos estavam muito bem tendo em vista as condições tão adversas do clima no planalto central. O sol cada vez mais forte e a umidade cada vez mais baixa.

Quando eles saíram para completar a terceira volta de bike, finalmente resolvi ir à área de transição para buscar uma sobra e fazer as fotos da corrida.

Reta final

Enquanto estava lá, esperando, pude observar um pouco mais da organização da prova. Para cada atleta que chegava à área de transição, onde deixariam as bikes e sairiam para correr, havia um staff responsável por recolher sua bicicleta e levá-la com cuidado ao bicicletário.

A comunicação por rádio entre os organizadores dava a noção exata de como estava a competição. Ali também pude prestar mais atenção aos paratletas, entre eles havia um sem parte da perda esquerda. Pessoas como ele são exemplos de superação. Quantas barreiras arrumamos para não realizar nossos desejos e objetivos? Mas essa é uma discussão para o próximo momento.

Durante a espera, tentava passar “boletins de notícia” para dois outros grandes amigos que estavam distantes, na torcida e expectativa... Júnior e Josemar.

Fabrizio foi o primeiro dos mosqueteiros chegar do ciclismo, depois de 2h25, e sair para corrida. Mas Tavares e Hélcio não estavam muito atrás. Os dois fizeram o tempo de 2h44, com poucos segundos de diferença.

Finalmente, cerca de 10h30 da manhã, todos eles já estavam correndo. E o sol? Ah!!!!!!!! O sol... também estava lá. Lindo, tórrido. Pensei: “Agora é a hora da sobra. Mas... peraí! Tenho que ver como será a corrida deles. Não dá pra ficar aqui, sem saber como estão”.

Por ter feito algumas corridas de rua em Brasília e por estar a cinco meses fazendo meus treinos na cidade, sabia que aquela talvez fosse a parte mais dura da prova. Sol de esturricar + asfalto queimando + ar seco + umidade de 20% + subidas... realmente não seria nada fácil.

Fiquei próxima de um dos postos de abastecimento de água, no km 10, para ver como estavam os meninos e tentar animá-los para os 10 km finais. Ainda tinha receio que Tavares tivesse problemas na corrida, por causa da tal lesão. Mas para minha alegria ele chegou ao km 10 inteiro. Foi o primeiro dos mosqueteiros. Entretanto, para meu desespero, vi a água que estava sendo distribuída aos atletas acabar (erro do staff que sequer comunicou a organização sobre o fato). Se o calor estava desesperador par nós, que estávamos assistindo a prova, imaginem então para quem estava correndo.

Quando Tavares passou por mim, tentei avisá-lo sobre a falta de água. No ponto em que estava os atletas passavam por mim indo e voltando do km 10. E minha intenção era que ele conseguisse raciocinar (mesmo com aquele sol de rachar) e não tomasse o gel que estava sendo distribuído no posto anterior ao que eu estava. Gel sem água... não dá! Mas acontece que quando disse: “Tavares, se liga que aqui está sem água”, ele só ouviu: “aqui tem água”.
Resultado... desceu o gel goela abaixo.

Naquele meio tempo, na agonia da água que não chegava, pensei em pegar o carro e sair em busca do líquido precioso. Mas as ruas na proximidade estavam todas interditadas e teria de descobrir algum caminho alternativo. Pensei que aquilo pudesse levar muito tempo e com certeza a organização seria mais ágil para fazer a reposição.

Infelizmente, quando Fabrizio passou por mim na ida para o km 10, a água ainda não havia chegado. Minha preocupação com ele era maior que com os demais, por dois motivos: 1º porque sabia que aquela era sua estréia; 2º porque já tinha o visto desistir de algumas provas e torcia muito para que aquilo não se repetisse ali. Pensei: “Vou avisá-lo que a água acabou. Vou falar para ele ficar firme, para não desistir. Mas pera aí.... se disser para ele não desistir ele pode achar que está muito mal e isso pode deixar o psicológico dele abalado”.

Nessas horas, não sei se é assim para todo mundo, mas penso até no que dizer e não dizer para não prejudicar o emocional de quem está competindo.
Então, quando Fabrizio passou apenas orientei para que não tomasse o diacho daquele gel. Assim como Tavares, ele também chegou inteiro ao km 10, mas confesso que o peito doeu ao ver sua expressão quando soube que não havia água por ali.

Bem, a água foi resposta e quando Hélcio passou a situação já estava normalizada. Mas o calor.... continuava lá. Causticante!

A chegada

Depois que os nossos mosqueteiros passaram, fiz os cálculos e vi que faltavam cerca de 40’ para a chegada do Tavares. Naquele meio tempo poderia procurar algo para comer. Mas foi tudo em vão! Nada de comida!

- Então vou procurar a Viviane, esposa do Hélcio, e uma sombra na arquibancada para esperara pelos meninos.

Mas acontece que outras 999 pessoas chegaram na minha frente. Nada de sombra, nem arquibancada. Só me restou um brechinha no sol, perto da chegada. O que não me favorecia um bom ângulo para fotografar.

Fiquei lá... consumindo o resto a ansiedade, vendo os atletas chegarem (entre eles o tal paratleta)... a espera do Tavares. O vencedor da prova Oscar Galindez, já estava no seu merecido descanso depois de ter completado a prova em 4h04min.

A chegada do Tavares teve transmissão “ao vivo” para Maceió. Estava ao telefone com Josemar quando o avistei ao longe, há poucos metros da linha de chegada, depois de 5h16 de prova. Desculpem, mas não tenho como descrever a emoção desse momento. Digo apenas que tremia tanto que não consegui encontrar foco para a foto. A imagem que ficou foi uma tremedeira só. A emoção e tremedeira foi a mesma com a chegada dos amigos Hélcio e Fabrizio, que completaram a prova em 5h28 e 5h40.

Ufa! Acabou! Apesar do cansaço, todos chegaram bem, felizes! Felizes de mais da conta!

Cada um contando de si... da sua visão sobre a prova e de como passou pelos “perrengues”... mais uma vez surgiu a pergunta: o que motiva essas pessoas estarem aqui? Estilo de vida!

terça-feira, 22 de agosto de 2006

70.3 do começo

Quando o Júnior ligou e deu a notícia de que três de nossos amigos viriam à capital federal participar do Iron Man 70.3 não tinha bem a noção de como seria aquele domingo – 20 de agosto de 2006.

Estava contente em poder recebê-los (matar a saudade depois de tantos meses distante) e disposta a ajudar no que fosse preciso. Afinal, bem sabia que viajar para fazer uma competição fora de casa é, sem dúvida, um momento de tensão. Estar sozinho em uma cidade estranha pode tornar as coisas ainda mais desgastantes.

Bem, dias depois do telefonema, procurei saber um pouco mais sobre a tal prova. No site oficial da competição, tive acesso às informações básicas: um triathlon de longa distância. O que significa: 1.900m de natação, 90km de ciclismo e 21km de corrida. Até ai tudo bem. Outros amigos já haviam participado deste tipo de competição, o que tornava o fato relativamente comum. Tornava! (passado)

Na sexta-feira passada comecei a sentir que aquela prova seria diferente do que imaginava. Embora Tavares, um dos “três mosqueteiros” já tivesse desembarcado na cidade, minha ficha ainda não havia caído. Foi apenas à noite, enquanto esperava Fabrizio chegar, no saguão do aeroporto, é que senti aquele famoso friozinho na barriga. Durante a espera, pude acompanhar o desembarque de outros atletas. Alguns vinham sozinhos e outros eram recebidos por amigos... mas, TODOS, traziam a mesma expectativa indisfarçável no olhar, como se estivessem tentando fazer o reconhecimento da terra estranha. Expectativa, aliás, que também estava visível na fisionomia do nosso amigo.

Preparativos

No dia seguinte, o calor e a baixa umidade da cidade já davam a dica de que o domingo de prova não seria nada mole. Mas seria espetacular. Nos encontramos, eu e dois dos mosqueteiros, logo cedo. Tínhamos de ir ao local onde estavam sendo distribuídos dos kits de prova e tomar conhecimento sobre os detalhes da competição.

Ao ver as áreas de transição, largada e chegada da prova, a minha expectativa começou a crescer. De imediato, fiquei impressionada pela organização. Seria difícil tentar descrever o trabalho realizado por aquelas centenas de pessoas. Tudo extremamente alinhado, programado, cronometrado. Quase impecável!

Parte da prova começava mesmo na véspera, com o check in das bicicletas. No sábado, todos os atletas tinham de deixar na área de transição as suas “magrelas” e o material que seria utilizado durante a competição. Sacolas de cores diferentes eram utilizadas para guardar os apetrechos da natação, ciclismo e corrida. Tudo ficava pendurado em araras enormes, o que facilitaria o acesso dos atletas. Uma prática simples e extremamente eficaz. Na área de transição também haviam tendas para a troca de roupa e diversos banheiros químicos. Mas como disse, essa é apenas uma pobre descrição sobre a forma de organização.

Paralelo a toda essa movimentação, observava que ali se reuniam pessoas de diferentes estados e até nacionalidades. Também haviam esposas, maridos, namoradas e filhos.

Por momentos pensei: "O que faz essas pessoas viajarem milhas e milhas, acordar às tantas da madrugada para estar aqui. O que me faz estar aqui, agora?" As respostas reforçavam em mim a certeza de que escolhemos não apenas um esporte, mas um estilo de vida.

Poucas horas....

Já sentindo a expectativa do que estava por vir, dormir naquele sábado foi um tanto difícil. O despertador programado para às 4h, foi substituído pela preocupação... O medo de não acordar no horário certo e atrapalhar os meninos, me fez despertar várias vezes durante a noite. E se eu, mera expectadora, já estava daquele jeito... imagine eles. Pra nenhum de nós deve ter sido fácil dormir naquela noite.

Às 5h em ponto já estava na porta do hotel onde dois de nossos amigos estavam hospedados. O terceiro, com a esposa e filha, havia ficado em um hotel mais próximo ao evento.

Embora a largada da prova estivesse marcada para 7h e os atletas tivessem até 6h40 para pintura e checagem final dos equipamentos, queríamos chegar logo. Não apenas pela expectativa, mas para prevenir contratempos.

E... mesmo tendo entre nossos atletas um virginiano (pessoas que têm como uma de suas características a pontualidade) tenho que admitir: eles são um bocado enrolados. Então... checa e “recheca” tudo antes de sair. Procura, acha, perde novamente.

O bom disso foi que ganhei uns minutos extra para cochilar enquanto esperava os meninos acabarem de tomar banho e organizar os equipamentos.
- Tá tudo certo?
- Tá!?
- Então... vamos simbora!


Às 5h40 finalmente saímos. O coração já estava na garganta. A 1h20min que faltava para a largada passou rapidinho. Foi apenas o tempo de fazer a pintura dos atletas, dar uma última olhadinha nas bicicletas, nos equipamentos, vestir a “roupa de tubarão” (apelido carinhoso para o neoprene) e quando menos esperamos já estava todo mundo no píer onde seria a largada.

Faltando poucos minutos para o início da prova, alguém da organização gritava, aos montes, tentando encontrar o dono de uma tornozeleira perdida. Todos os atletas tinham de usar uma tornozeleira com um chip de identificação. Perde-la significava a desclassificação imediata.

Imaginar o desespero daquele atleta ao perceber que havia perdido seu chip, fez minha adrenaliza aumentar ainda mais. E ver aquele mar de gente caindo na água fez o coração parar na boca. Não sei se estava tão nervosa quanto os meninos, mas, a emoção de vê-los naquele desafio, me fez chorar na largada da prova.

Olhar de fora

Impossível saber o que se passava na cabeça deles durante aquelas cinco horas de tanto de competição... mas posso falar do que vi e senti... (continua!)

domingo, 13 de agosto de 2006

A Arte de perder

“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las,
Que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida,
A hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita.
Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu,
Dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça muito sério.”
Elizabeth Bishop