sexta-feira, 1 de setembro de 2006
A vida 'senhorinha'
Sentada, de pés juntinhos e bengala entre as pernas...
O que se passa na mente daquela mulher de cabelos nevoados e olhar meigo?
Serena, de semblante paciente a espera da chamada...
Para aonde ela irá? De onde vem? Em que lugares já esteve?
Terá vivido bons anos? Terá sido boa mãe, filha?
O que se passa na cabeça daquela senhorinha de mãos pequeninas
e delicadamente postas sobre os joelhos?
Será que espera por um reencontro?
Será que pensa no jantar, no seu jardim, nos seus netos?
Pensaria em dias alegres ou desperdiçados?
Saudade de alguém, saudade dos anos, saudades de si?
O que vai à mente daquela senhorinha que a tudo observa de olhos atentos?
Como quem assiste a um filme pela segunda, terceira ou quarta vez...
São lembranças do passado ou será o futuro que tenta desenhar?
O que se passa na mente que habita aquele corpinho franzino?
Como serei eu senhorinha? Serei bem vivida?
Só não vale chegar ao fim da vida (ou mesmo de um dia) sem ter percebido o principal.
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Iron 70.3 (2ª parte)
Impossível saber o que se passava na cabeça deles durante aquelas cinco horas e tanto de prova. Mas posso falar do que vi e senti.
As quatro e pouco da manhã, quando me preparava para sair de casa, pensei: “Vou acompanhar a largada, tirar algumas fotos dos meninos e ficar por ali, na área de transição, para vê-los entre as passagens. Ah! Lógico, também vou levar um livro pra passar o tempo. Procurar uma árvore... uma sombra. É só ter um pouco de paciência e as horas passarão rapidinho”.
A previsão era de que os meninos terminassem a prova em, no mínino, 5h30min. Também pensei em aproveitar o tempo para comprar algo na exposição que estava tendo por ali... uma camisa.... coisas do tipo. Ou, quem sabe, tentar perder o medo de bung jump, já que eles haviam montado uma estrutura para salto dentro do evento.
Mas acontece que meus planos não saíram da forma como imaginei...
Como minha idéia era registrar todas as etapas da prova, depois da largada corri para o local onde os atletas sairiam da água pra tirar fotos dos meninos. Os favoritos logo chegaram e estava preparada para esperar pelos nossos mosqueteiros pacientemente. Mas, quando menos espero, com pouco mais de 20 min (precisos 28’18”), eis que surge o Fabrizio. Sem nenhum traço de cansaço. Entre surpresa e feliz, resolvi esperar mais um pouco para tentar fazer fotos dos outros amigos.
Mas também queria registrar a saída deles de bicicleta. Então pensei: “Espero eles saírem da água e corro para tentar pegar a transição para bike. Depois... vou para sombra”. O sol já estava começando a tostar meus ombros.
Acontece que a diferença entre o tempo dos meninos na natação não permitiu esse registro tão fiel. Tavares saiu da água com 31’28” e Hélcio com 35’19”. Ou seja, consegui fazer a foto do pedal de apenas dois mosqueteiros.
- E agora? Tenho que fazer o foto do Fabrizio. Ele não pode ficar sem o registro do pedal. E depois, serão 90 km de ciclismo (divididos em três voltas de 30 km)... Não dá pra ficar aqui, sentada, sem saber o que se passa no asfalto. Vou assistir ao menos a primeira volta.
Então procurei um lugar por onde os atletas passariam e fiquei esperando. Naquela altura do campeonato a “quentura” já estava matando. Olhei para sol, para as sombras e pensei: “Depois que eles passarem por aqui vou lá para dentro, sentar na arquibancada coberta, e esperar lendo meu livro”.
Na primeira volta consegui ver apenas o Fabrízio e Hélcio... nada do Tavares. A preocupação começou a bater. “Caramba! Será que aconteceu alguma coisa?”. Lógico que depois disso decidi ficar e assistir a segunda volta. Não poderia ficar na expectativa, sem saber o que teria acontecido a ele. “Será que não vi o Tavares passar? Será que ele quebrou? Poxa vida, cadê o ‘Tata’?” Sabia que ele estava com uma lesão muscular e tinha medo que houvesse acontecido algo. O ‘negão’ tem raça, mas não é de ferro (embora seja um Iron Man).
O tempo entre uma volta e outra era suficiente para ir ao banheiro e procurar algo para comer. Detalhe: lembrei do livro e esqueci a comida – o vacilo do dia. Mas descobri que por perto não havia nenhum lugar para comprar comida e a única barraca de alimentação do evento ainda estava fechada.
Constatado o fato de que teria que me abstrair do café da manhã, voltei correndo para a rua. Durante a espera, uma conversa aqui... outra ali... e pude confirmar de que realmente a organização do Iron escolheu o pior trecho de asfalto de Brasília para compor o ciclismo. A cidade teve o asfalto todo reformado, mas ali, justamente ali, havia pedaços recapeados que faziam as bicicletas trepidarem.
Na segunda volta o Fabrízio ainda estava na frente dos outros mosqueteiros. Quase não acreditei. Ele, novato no triathlon de longa distância, estava conseguindo se manter muito bem na prova. Aliás, todos estavam muito bem tendo em vista as condições tão adversas do clima no planalto central. O sol cada vez mais forte e a umidade cada vez mais baixa.
Quando eles saíram para completar a terceira volta de bike, finalmente resolvi ir à área de transição para buscar uma sobra e fazer as fotos da corrida.
Reta final
Enquanto estava lá, esperando, pude observar um pouco mais da organização da prova. Para cada atleta que chegava à área de transição, onde deixariam as bikes e sairiam para correr, havia um staff responsável por recolher sua bicicleta e levá-la com cuidado ao bicicletário.
A comunicação por rádio entre os organizadores dava a noção exata de como estava a competição. Ali também pude prestar mais atenção aos paratletas, entre eles havia um sem parte da perda esquerda. Pessoas como ele são exemplos de superação. Quantas barreiras arrumamos para não realizar nossos desejos e objetivos? Mas essa é uma discussão para o próximo momento.
Durante a espera, tentava passar “boletins de notícia” para dois outros grandes amigos que estavam distantes, na torcida e expectativa... Júnior e Josemar.
Fabrizio foi o primeiro dos mosqueteiros chegar do ciclismo, depois de 2h25, e sair para corrida. Mas Tavares e Hélcio não estavam muito atrás. Os dois fizeram o tempo de 2h44, com poucos segundos de diferença.
Finalmente, cerca de 10h30 da manhã, todos eles já estavam correndo. E o sol? Ah!!!!!!!! O sol... também estava lá. Lindo, tórrido. Pensei: “Agora é a hora da sobra. Mas... peraí! Tenho que ver como será a corrida deles. Não dá pra ficar aqui, sem saber como estão”.
Por ter feito algumas corridas de rua em Brasília e por estar a cinco meses fazendo meus treinos na cidade, sabia que aquela talvez fosse a parte mais dura da prova. Sol de esturricar + asfalto queimando + ar seco + umidade de 20% + subidas... realmente não seria nada fácil.
Fiquei próxima de um dos postos de abastecimento de água, no km 10, para ver como estavam os meninos e tentar animá-los para os 10 km finais. Ainda tinha receio que Tavares tivesse problemas na corrida, por causa da tal lesão. Mas para minha alegria ele chegou ao km 10 inteiro. Foi o primeiro dos mosqueteiros. Entretanto, para meu desespero, vi a água que estava sendo distribuída aos atletas acabar (erro do staff que sequer comunicou a organização sobre o fato). Se o calor estava desesperador par nós, que estávamos assistindo a prova, imaginem então para quem estava correndo.
Quando Tavares passou por mim, tentei avisá-lo sobre a falta de água. No ponto em que estava os atletas passavam por mim indo e voltando do km 10. E minha intenção era que ele conseguisse raciocinar (mesmo com aquele sol de rachar) e não tomasse o gel que estava sendo distribuído no posto anterior ao que eu estava. Gel sem água... não dá! Mas acontece que quando disse: “Tavares, se liga que aqui está sem água”, ele só ouviu: “aqui tem água”.
Resultado... desceu o gel goela abaixo.
Naquele meio tempo, na agonia da água que não chegava, pensei em pegar o carro e sair em busca do líquido precioso. Mas as ruas na proximidade estavam todas interditadas e teria de descobrir algum caminho alternativo. Pensei que aquilo pudesse levar muito tempo e com certeza a organização seria mais ágil para fazer a reposição.
Infelizmente, quando Fabrizio passou por mim na ida para o km 10, a água ainda não havia chegado. Minha preocupação com ele era maior que com os demais, por dois motivos: 1º porque sabia que aquela era sua estréia; 2º porque já tinha o visto desistir de algumas provas e torcia muito para que aquilo não se repetisse ali. Pensei: “Vou avisá-lo que a água acabou. Vou falar para ele ficar firme, para não desistir. Mas pera aí.... se disser para ele não desistir ele pode achar que está muito mal e isso pode deixar o psicológico dele abalado”.
Nessas horas, não sei se é assim para todo mundo, mas penso até no que dizer e não dizer para não prejudicar o emocional de quem está competindo.
Então, quando Fabrizio passou apenas orientei para que não tomasse o diacho daquele gel. Assim como Tavares, ele também chegou inteiro ao km 10, mas confesso que o peito doeu ao ver sua expressão quando soube que não havia água por ali.
Bem, a água foi resposta e quando Hélcio passou a situação já estava normalizada. Mas o calor.... continuava lá. Causticante!
A chegada
Depois que os nossos mosqueteiros passaram, fiz os cálculos e vi que faltavam cerca de 40’ para a chegada do Tavares. Naquele meio tempo poderia procurar algo para comer. Mas foi tudo em vão! Nada de comida!
- Então vou procurar a Viviane, esposa do Hélcio, e uma sombra na arquibancada para esperara pelos meninos.
Mas acontece que outras 999 pessoas chegaram na minha frente. Nada de sombra, nem arquibancada. Só me restou um brechinha no sol, perto da chegada. O que não me favorecia um bom ângulo para fotografar.
Fiquei lá... consumindo o resto a ansiedade, vendo os atletas chegarem (entre eles o tal paratleta)... a espera do Tavares. O vencedor da prova Oscar Galindez, já estava no seu merecido descanso depois de ter completado a prova em 4h04min.
A chegada do Tavares teve transmissão “ao vivo” para Maceió. Estava ao telefone com Josemar quando o avistei ao longe, há poucos metros da linha de chegada, depois de 5h16 de prova. Desculpem, mas não tenho como descrever a emoção desse momento. Digo apenas que tremia tanto que não consegui encontrar foco para a foto. A imagem que ficou foi uma tremedeira só. A emoção e tremedeira foi a mesma com a chegada dos amigos Hélcio e Fabrizio, que completaram a prova em 5h28 e 5h40.
Ufa! Acabou! Apesar do cansaço, todos chegaram bem, felizes! Felizes de mais da conta!
Cada um contando de si... da sua visão sobre a prova e de como passou pelos “perrengues”... mais uma vez surgiu a pergunta: o que motiva essas pessoas estarem aqui? Estilo de vida!
terça-feira, 22 de agosto de 2006
70.3 do começo
Quando o Júnior ligou e deu a notícia de que três de nossos amigos viriam à capital federal participar do Iron Man 70.3 não tinha bem a noção de como seria aquele domingo – 20 de agosto de 2006.
Estava contente em poder recebê-los (matar a saudade depois de tantos meses distante) e disposta a ajudar no que fosse preciso. Afinal, bem sabia que viajar para fazer uma competição fora de casa é, sem dúvida, um momento de tensão. Estar sozinho em uma cidade estranha pode tornar as coisas ainda mais desgastantes.
Bem, dias depois do telefonema, procurei saber um pouco mais sobre a tal prova. No site oficial da competição, tive acesso às informações básicas: um triathlon de longa distância. O que significa: 1.900m de natação, 90km de ciclismo e 21km de corrida. Até ai tudo bem. Outros amigos já haviam participado deste tipo de competição, o que tornava o fato relativamente comum. Tornava! (passado)
Na sexta-feira passada comecei a sentir que aquela prova seria diferente do que imaginava. Embora Tavares, um dos “três mosqueteiros” já tivesse desembarcado na cidade, minha ficha ainda não havia caído. Foi apenas à noite, enquanto esperava Fabrizio chegar, no saguão do aeroporto, é que senti aquele famoso friozinho na barriga. Durante a espera, pude acompanhar o desembarque de outros atletas. Alguns vinham sozinhos e outros eram recebidos por amigos... mas, TODOS, traziam a mesma expectativa indisfarçável no olhar, como se estivessem tentando fazer o reconhecimento da terra estranha. Expectativa, aliás, que também estava visível na fisionomia do nosso amigo.
Preparativos
No dia seguinte, o calor e a baixa umidade da cidade já davam a dica de que o domingo de prova não seria nada mole. Mas seria espetacular. Nos encontramos, eu e dois dos mosqueteiros, logo cedo. Tínhamos de ir ao local onde estavam sendo distribuídos dos kits de prova e tomar conhecimento sobre os detalhes da competição.
Ao ver as áreas de transição, largada e chegada da prova, a minha expectativa começou a crescer. De imediato, fiquei impressionada pela organização. Seria difícil tentar descrever o trabalho realizado por aquelas centenas de pessoas. Tudo extremamente alinhado, programado, cronometrado. Quase impecável!
Parte da prova começava mesmo na véspera, com o check in das bicicletas. No sábado, todos os atletas tinham de deixar na área de transição as suas “magrelas” e o material que seria utilizado durante a competição. Sacolas de cores diferentes eram utilizadas para guardar os apetrechos da natação, ciclismo e corrida. Tudo ficava pendurado em araras enormes, o que facilitaria o acesso dos atletas. Uma prática simples e extremamente eficaz. Na área de transição também haviam tendas para a troca de roupa e diversos banheiros químicos. Mas como disse, essa é apenas uma pobre descrição sobre a forma de organização.
Paralelo a toda essa movimentação, observava que ali se reuniam pessoas de diferentes estados e até nacionalidades. Também haviam esposas, maridos, namoradas e filhos.
Por momentos pensei: "O que faz essas pessoas viajarem milhas e milhas, acordar às tantas da madrugada para estar aqui. O que me faz estar aqui, agora?" As respostas reforçavam em mim a certeza de que escolhemos não apenas um esporte, mas um estilo de vida.
Poucas horas....
Já sentindo a expectativa do que estava por vir, dormir naquele sábado foi um tanto difícil. O despertador programado para às 4h, foi substituído pela preocupação... O medo de não acordar no horário certo e atrapalhar os meninos, me fez despertar várias vezes durante a noite. E se eu, mera expectadora, já estava daquele jeito... imagine eles. Pra nenhum de nós deve ter sido fácil dormir naquela noite.
Às 5h em ponto já estava na porta do hotel onde dois de nossos amigos estavam hospedados. O terceiro, com a esposa e filha, havia ficado em um hotel mais próximo ao evento.
Embora a largada da prova estivesse marcada para 7h e os atletas tivessem até 6h40 para pintura e checagem final dos equipamentos, queríamos chegar logo. Não apenas pela expectativa, mas para prevenir contratempos.
E... mesmo tendo entre nossos atletas um virginiano (pessoas que têm como uma de suas características a pontualidade) tenho que admitir: eles são um bocado enrolados. Então... checa e “recheca” tudo antes de sair. Procura, acha, perde novamente.
O bom disso foi que ganhei uns minutos extra para cochilar enquanto esperava os meninos acabarem de tomar banho e organizar os equipamentos.
- Tá tudo certo?
- Tá!?
- Então... vamos simbora!
Às 5h40 finalmente saímos. O coração já estava na garganta. A 1h20min que faltava para a largada passou rapidinho. Foi apenas o tempo de fazer a pintura dos atletas, dar uma última olhadinha nas bicicletas, nos equipamentos, vestir a “roupa de tubarão” (apelido carinhoso para o neoprene) e quando menos esperamos já estava todo mundo no píer onde seria a largada.
Faltando poucos minutos para o início da prova, alguém da organização gritava, aos montes, tentando encontrar o dono de uma tornozeleira perdida. Todos os atletas tinham de usar uma tornozeleira com um chip de identificação. Perde-la significava a desclassificação imediata.
Imaginar o desespero daquele atleta ao perceber que havia perdido seu chip, fez minha adrenaliza aumentar ainda mais. E ver aquele mar de gente caindo na água fez o coração parar na boca. Não sei se estava tão nervosa quanto os meninos, mas, a emoção de vê-los naquele desafio, me fez chorar na largada da prova.
Olhar de fora
Impossível saber o que se passava na cabeça deles durante aquelas cinco horas de tanto de competição... mas posso falar do que vi e senti... (continua!)
domingo, 13 de agosto de 2006
A Arte de perder
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las,
Que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida,
A hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita.
Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu,
Dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça muito sério.”
Elizabeth Bishop
sábado, 29 de julho de 2006
Inverno de esturricar
Tô falando de falta de umidade mesmo. De ar seco. Umidade tipo 20%. Sem dúvida, isso ainda é melhor que a situação dos nossos vizinhos mineiros - sofrendo com críticos 10% (abaixo dos índices registrados nos desertos). Mas sabe o que isso significa? Significa correr sem suar, lavar a cabeça e não precisar de secador para enxuga-la, acordar no meio da madrugada com a boca seca, ter dor de cabeça e moleza no corpo. Olhar no horizonte e enxergar embasado, por causa de uma névoa seca no ar. Respirar fundo e ter a impressão de ter dado uma boa fungada num monte de terra. Isso entre outras coisas.
Ai meu Deus! Vá lá que também não me agrada os 98% de umidade (insuportáveis) em que vivem os nossos companheiros amazonenses.... mas assim também está demais.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
Contrato pré-nupcial ou Cegonha?
A princípio uma solução e tanto para o secular e ainda utilizado golpe do baú (será mesmo?). Mas o fato é que a solução ganhou novas funcionalidades. Num bate papo com amiga, uma delas prestes a se casar, o assunto surgiu entre a lista de providências a serem tomadas até o tão esperado “SIM”!
Além do enxoval, lista de convidados, igreja, lua de mel.... também era preocupação dos noivos delimitar as obrigações de marido e mulher. Sim, por que esse negócio de que “o amor vence tudo” passou a ter tanta credibilidade quanto a D.Cegonha e Sr.Papai Noel.
Uma série de itens seria acordada entre o casal - ele, administrador e ela, arquiteta e advogada. Tudo devidamente assinado e registrado em cartório; sujeito a multa e indenização em caso de quebra de acordo por uma das partes.
Além de estabelecer a separação de bens, devaneio ou não, a lista enfileirava itens como: quem pagaria o que; quantos filhos teriam; quem levaria as crianças para a escola; quem acordaria de noite para acalmar o choro do bebê; quantas vezes por semana o casal deveria fazer sexo; quando iriam discutir a relação; quem lavaria a louça em caso de ausência da secretária; quem dormiria no sofá depois da briga; quantas viagens deveriam fazer por ano; as datas que não poderiam passar sem presente; o grau de insanidade permitido durante a TPM; os dias reservados para o jogo de futebol... e por aí vai.
Claro que diante da explanação tão enfática da amiga, algumas perguntas não quiseram calar. Quem faria a contabilidade do sexo? Sexo ruim seria registrado como crédito ou débito? Quem seria responsabilizado em caso de uma produção excessiva de “hormônios assassinos” durante a TPM? Havia um valor mínimo para os presentes, tipo o que se faz nas confraternizações de empresa? Ou jóia e CD teriam o mesmo peso? Caso a chuva atrapalhasse o jogo de futebol da semana, o crédito seria cumulativo ou não?
O contrato exigia uma análise apurada de riscos externos e internos. Todas as situações imprevistas deveriam ser previstas para que ninguém saísse prejudicado. Mas, a única conclusão que se pode chegar é que não há como pactuar sentimentos e reações. Afinal, o Ser é humano.
Bem, elas preferiram acreditar na D. Cegonha e no Sr. Papai Noel. Acreditar também que nem todo começo pressupõe um fim. Afinal, de qualquer forma, com a lentidão da justiça brasileira, é menos trabalho "juntar os caquinhos".
domingo, 16 de julho de 2006
Quando não é seu dia... não é seu dia mesmo.
Sem muito o que fazer, e como não havia conseguido fazer o check-in pela Internet, preferi chegar no aeroporto com certa antecedência e garantir uma vaga na frente. A idéia era sair do avião o mais rápido possível e chegar em casa bem depressa. Vôo marcado para 15h30, às 13h40 estava com o bilhete na mão.. poltrona 1B. Primeira fileira, mais espaço. Excelente!
Mas... como aquele não era meu dia... não seria tão simples assim. Descobri que de nada adiantou me adiantar. A começar pelo atraso no embarque, que só aconteceu às 16h17. Engraçado é que nem mesmo haviam anunciado o embarque e o painel do aeroporto já informava: vôo 3577 – Brasília - Ultima chamada.
Quando chamada, fui me encaminhando ao avião. Antes de entrar, constatei mais uma vez que o glamour dos ares não é mais o mesmo. A recepção era feita por um comandante barrigudo e aeromoças com a maquiagem tão carregada que poderiam participar dos desfiles excêntricos da Fashion Week. Sem falar no cabelo repleto de “goma” (laquê? gel?...Sei lá o que!)
Ao entrar no avião, vi que havia um indivíduo no meu lugar. – “Moço, este é meu lugar”. Tratava-se de um casal “cara de pau” com um bebê de colo. – “Você se importaria de trocar de lugar? É que estamos com a neném... blá, blá, blá.”
Crianças sempre nos tocam e os pais deviam ser processados por usá-las em próprio proveito. Sem pensar muito bem, aceitei. – “Mas em que lugar devo sentar”? – “Pode ser no 22D”.
Não podia ser tão ruim assim (pensei). Respirei fundo e fui caminhando lentamente pelo corredor. O número 22 não chegava e percebia que estava cada vez mais distante de sair rápido daquele avião. Percebi também que a letra “D” referia-se aos acentos do meio. A raiva foi aumentando. Entre quem eu sentaria? Seria esmagada?
Final do corredor. Isso mesmo, os acentos 22 eram os últimos do avião. PQP! PQP mil vez! E pra completar... havia alguém sentado no tal 22D. A aeromoça Joyce estava em pé e me dirigia a ela. – “Acho que temos um problema”. Expliquei o fato. Estava com tanta raiva que falava manso e baixinho. Muito simpática ela sugeriu o acento 22B, mas esclareceu que eu não era obrigada a fazer a troca e que ela poderia pedir para que o casal voltasse para sua poltrona. Pensei na criança, no vôo que já estava atrasado e no fato de não estar disposta à encrenca. “Bendita” educação familiar!
O fato é que troquei a primeira poltrona pela última! Bela troca! Mas o pior estava ainda por vir. Depois de me acomodar, percebi que estava num “ônibus leito com asas”. Olhei para o lado, não haviam janelas. Nem uma chance de ver o céu para aliviar minha raiva contida. Num lamento... abaixei a cabeça. Um buraco no braço que dividia as duas poltronas, o chão sujo de migalhas e papéis me desanimaram mais ainda. Ergui a cabeça, respirei fundo.... e... veio então aquele cheiro desagradável do banheiro. E eram dois... bem ali, a pouco mais de 1m de distância.
Fechei os olhos, tentando me abstrair daquela situação. Mas, ao ligar o motor da aeronave.... não acreditei... estava sentado sobre ele. Barulho ensurdecedor. Quando o avião começou a se mover, as aeromoças saíram apressadas fechando os bagageiros superiores. Situação no mínimo estranha!
Será que aquilo poderia piorar? Poderia sim! Nos cinco primeiros minutos o passageiro a minha frente reclinou sua poltrona. Um palmo era a distância que faltava para encostar no meu nariz. Aos poucos a situação começou a ganhar proporções. Percebi que tranqüilidade era tudo que não teria naquele vôo. O entra e sai de pessoas no banheiro era constante. Além do trânsito, algumas se encostavam à minha poltrona, quase sentadas ao meu colo, enquanto esperavam o banheiro desocupar. Sem falar que ali era também a copa onde as aeromoças arrumavam as refeições que seriam distribuídas durante o vôo.
E foi assim durante as quase 2h15 de viagem naquele “ônibus com asas”. Pela primeira vez me arrependi de manter a fidelidade àquela companhia aérea. Desde o check-in (pela falta de informações) até a restituição demorada da bagagem. É nessas horas que sinto falta da concorrência de mercado. Será que reclamar adianta?
